Aproveitando a licença do quartel, fui para passar a Páscoa com a família.
Subi ontem, sábado, para a Faida.
No caminho fiquei pensando na vida e no que tem passado a nossa família.
Acabou o inverno, já estamos na primeira semana da primavera.
Pode-se ver que a paisagem se renova, tudo renasce e floresce, mas o mesmo não acontece nas condições de vida das pessoas, incluindo nossa família.
É muita dificuldade, muita penúria! O pedaço de terra que coube a meu pai é insuficiente para produzir o mínimo que se necessitaria para sustentar uma família com 4 filhos, apesar de todos, independentemente de idade, trabalharem intensivamente de sol-a-sol na lavoura. Trabalhos e serviços temporários prestados a terceiros durante o inverno quando a agricultura está inativa, que já foram um paliativo no passado, já não estão mais disponíveis. Aliás, a situação geral está difícil para todos, em toda a região. O que se ouve são histórias de muito trabalho e sofrimento para pouco resultado.
Por isso, já sabia qual seria o tema das conversas familiares durante o sábado e domingo; o que inicialmente era uma vaga idéia se tornou num projeto sério e decidido: vamos partir, emigrar.
E para o outro lado do Atlantico. Pode-se ler nos jornais e revistas que emigrar virou moda, virou febre. Realmente, muita gente está partindo e deixando para trás parentes, amigos, a pátria. Se partem para seguir uma tendência não sei; o que sei que no nosso caso será por imperiosa necessidade.
Mamãe resistiu bastante à idéia. Na verdade está amedrontada com as histórias escabrosas que circulam por aí sobre outros emigrantes que passaram fome, foram enganados, ficaram desprotegidos no meio da floresta, feras e índios canibais...
Garantimos a ela que vamos tomar todas as precauções e, afinal, somos 5 homens para cuidar dela.
De qualquer maneira, a decisão está tomada. Agora é trabalhar nos detalhes e preparativos.
Em primeiro lugar temos de estudar melhor qual destino escolher.
Todos falam genericamente em ir para a América, mas o Novo Mundo é muito grande e muito diverso.
Inicialmente cogitamos ir para os Estados Unidos, já que emigrar para qualquer país da Europa está fora de questão.
Todos dizem que o país está progredindo muito: a Guerra Civil acabou faz dez anos, a nova fronteira oeste promete muita coisa (dizem que há muito ouro nas minas da Califórnia).
Porém as oportunidades na costa leste são mais para trabalhadores urbanos ou então nas minas de carvão e minério ou mesmo na indústria siderúrgica.
Para o oeste, para o lado do Pacífico, encarece muito mais a viagem: quem parte para Nova Iorque tem um preço adicional a ser pago pela viagem em estrada de ferro até o oeste (Ferrovia Transcontinental para a Califórnia); a outra opção, viagem de navio via Estreito de Magalhães (aliás, um pesadelo essa travessia, pelo que ouvi falar). Além disso, dizem que as terras na California são um deserto só. De um jeito ou de outro, a América do Norte não é o nosso tipo. Além do mais, é um país cuja língua é mas difícil para nós.
Assim, acho que estaremos mais propensos a ir para algum país da America do Sul.
Ficamos de pensar melhor sobre esse assunto para voltar a conversar e decidir mais precisamente para onde ir.
Papai vai cuidar de verificar o quanto pode arrecadar com a venda no que for deixado para trás.
Em Trento vou buscar mais informações sobre os países que estão atraindo imigrantes, as oportunidades existentes, os incentivos que são oferecidos, as companhias de navegação, preços de passagem, etc.
Em princípio, o tempo que temos é até o fim do verão quando acabam nossas atividades no campo.
Outro motivo, segundo os entendidos, é poder iniciar a travessia do oceano antes da chegada do outono (no inverno, nem pensar...)
Assim, temos de 5 a 6 meses para programar tudo, tomar todas as providências necessárias e viajar, então entre setembro e outubro.
Decidimos emigrar! Meus pais, Antonio e Domenica Moser, 49 e 46 anos, eu, Antonio Giuseppe, 22 anos, e meus irmãos Agostino Domenico, 20 anos, Luigi Mario, 17 anos e Giuseppe, 14 anos vamos partir para a América. Por várias gerações nossa família viveu na localidade de Faida, planalto de Piné, Provincia de Trento, sul do Tirol Austríaco. Tentarei descrever neste blog, em forma de diário, as diversas etapas dessa nossa epopéia.
APRESENTAÇÃO
APRESENTAÇÃO
Em 2015 comemoramos os 140 anos da Imigração Trentina em Rodeio(SC).
Como homenagem pessoal a esse evento, apresento, de maneira ficcional, o que teria sido um blog postado por meu bisavô (o blogger Toni Pinaitro) caso existisse a internet e suas ferramentas à época.
Com base em alguns documentos familiares preservados e informações disponíveis e verídicas (*), vou tentar construir um enredo narrando as aventuras e vicissitudes que a imaginação me sugere tenham ou possam ter acontecido. As datas dos posts tentam seguir as mesmas datas de 1875, inclusive os dias da semana, para dar uma idéia do desenrolar dos acontecimentos ao longo de 2015.
Se gostarem, divulguem. Comentários são bem-vindos, mas serão publicados apenas os que "entrarem no clima" da época.
Saluti,
Marcelo A. Moser
(*) Obras consultadas: HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE RODEIO, Iracema M Moser Cani, e VINCERE O MORIRE, Renzo M Grosselli.
Como o Blogger não aceita datas anteriores a 1970, os anos das datas nos quadros do blog foram arbitrados para fazer coincidir o dia da semana com o calendário de 1875, ocultando os algarismos de milhar e centena.
Deixar nosso paese ? Isso precisa de muita coragem! Eu já pensei em ir embora. Gostaria de conhecer os Estados Unidos, fare l´América, mas ainda não criei coragem. Muitos já foram para lá e voltaram mas a maioria fica mesmo por lá. Me contaram que no Brasil tem muito emprego para trabalhar em fazendas de café... Enfim tem de se pensar muito. É uma dificil decisão e principalmente quando se decide ir com toda a familia, vender o pouco que se tem. Pensem bem !
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